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Incas podem ajudar moradores de áreas de risco

Publicado: Sexta, 10 Janeiro 2020 10:59 , Última Atualização: Segunda, 13 Janeiro 2020 15:05

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Geólogo, professor do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com mestrado em Geociências e doutorado em Ecologia de Paisagem pela mesma instituição, Rualdo Menegat, que recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidad Privada Ada Byron, no Peru, revelou que a construção de Machu Picchu pelos povos Incas na altitude das Cordilheiras dos Andes sobre falhas geológicas foi deliberada. A descoberta, após 20 anos de pesquisa e quatro expedições ao Peru, teve grande repercussão internacional e foi publicada nos principais veículos científicos, como Science e Smithsonian Institute News.

Fale um pouco sobre o seu trabalho.

A pesquisa foi desenvolvida com base em três estratégias. Expedições geológicas de campo, análise de imagens de satélite em várias escalas e, finalmente, discussão de resultados com várias comunidades científicas da região andina. Em cada etapa da pesquisa, apresentei os resultados a pesquisadores peruanos de várias áreas do conhecimento e em várias universidades do Peru e da América do Sul, para me assegurar da correção dos dados e também avaliar o alcance e a importância de minhas descobertas para os pesquisadores da cultura andina. Recentemente, apresentei meu trabalho de forma mais ampla a toda a sociedade científica, especialmente à Sociedade Geológica da América. Como vemos, a descoberta científica tem 1% de inspiração e 99% de suor e longa persistência.

O que motivou a sua pesquisa?

Como geólogo e conhecendo a região andina, conjecturei que nenhuma civilização poderia ser estabelecida nos Andes sem conhecer as rochas e montanhas da região. Esse conhecimento, hoje chamamos de geologia, geomorfologia e hidrologia. Como Machu Picchu não foi destruída ou transformada pelos conquistadores espanhóis, ela ainda podia conter as informações que eu queria investigar. Considerei, inicialmente, que Machu Picchu não poderia ser um caso isolado da estratégia de sobrevivência dos Incas nos Andes. Não poderia ser construída por um mero capricho de um governante. Deveria fazer parte de uma prática de construção de assentamentos em lugares altos e rochosos. Mas o que guiaria essa prática? Que conhecimento das montanhas e do mundo rochoso os construtores precisavam saber para ter sucesso na construção de cidades sob essas condições? Essas questões ainda não haviam sido objeto de pesquisa científica e decidi investigá-las.

O que ela traz de novo?

O principal resultado foi a descoberta de que Machu Picchu e as cidades incas da região de Cusco foram construídas onde falhas geológicas se cruzam. As falhas geológicas são rupturas nas massas rochosas, formando longas faixas de rocha intensamente fraturadas. As falhas podem ocorrer associadas, formando redes reticuladas como na região de Cusco. Lá, as falhas resultaram de processos geológicos relacionados à formação da Cordilheira dos Andes. Essa cordilheira resultou da intensa compressão gerada na borda do continente pelo choque entre a placa da América do Sul e a placa de Nazca. Isso produz várias rupturas nas massas rochosas, fraturando-as. Quanto mais intenso o fraturamento, mais facilmente os blocos de rochas são removidos pela erosão. Por esse motivo, as redes de falhas são responsáveis pelo formato das montanhas, dos vales e também dos blocos que se destacam das encostas.

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Agora, veja: onde as falhas se cruzam, as rochas estão ainda mais fraturadas. Portanto, são locais que possuem blocos mais soltos na superfície do terreno e também onde podem ser mais facilmente removidos para construir terraços e edificações. Além disso, os blocos assumem formas típicas, como romboedros, triângulos, hexágonos e fractais (auto-similaridade). Essas formas podem se encaixar geometricamente em mosaicos de muros e paredes de edificações. Portanto, a disponibilidade de blocos pré-fraturados e a possibilidade de esculpir o substrato rochoso para encravar aí terraços e edifícios são grandes nesses locais. Finalmente, e igualmente importante, é o fato de que as áreas fraturadas por falha acumulam água. Esta fonte de água abastece os moradores e pode ser usada para irrigar os terraços de plantações. Portanto, essas são as condições geológicas essenciais que possibilitam construir e habitar locais elevados nas montanhas, longe do fundo dos vales, que geralmente são soterrados por avalanches e varridos por inundações torrenciais. Esses resultados são surpreendentes quando reconhecemos que o mundo andino é altamente inóspito. Lá a vida humana é possível apenas em alguns lugares, exatamente onde a água escorre através de fraturas.
Os incas sabiam seguir esse critério, que permitia estabelecer redes de assentamentos nesse tipo de oásis de habitabilidade proporcionado pelas falhas e fraturas. As cidades e as plantações não eram grandes, mas o pouco que podia ser produzido em um local possibilitava trocas com outros locais, resultando em grande diversidade. Os incas desenvolveram uma cultura de complementaridade e justaposição de blocos e alimentos que sustentaram 10 milhões de pessoas sem fome. Isso é singular na história humana. Não há outro exemplo de tamanho sucesso civilizatório em regiões elevadas, inóspitas e distantes de rios ou costas de mares.

Qual a importância do seu trabalho para a realidade brasileira?

Penso que podemos extrair muitos insights e soluções práticas. Em primeiro lugar, nos ajuda a compreender a singularidade dos povos originários do nosso continente. Mostra que os andinos tiveram uma cognição própria para o lugar em que viviam. Assim como os povos originários das florestas brasileiras. Entender esses sistemas cognitivos e a sabedoria do lugar é condição para a sobrevivência humana, ainda mais quando está em curso no presente século a emergência climática. Segundo, Machu Picchu, por sua forma construtiva, nos dá um claro exemplo de adaptabilidade e resiliência. Fácil pensar então que tecnologias brandas e simples podem ajudar nossas populações que vivem em zonas de risco em encostas declivosas a melhorarem sua segurança.
Se aprendermos com os incas, podemos mudar nossas estratégias de como garantir segurança em moradias de encostas. Isso ajudaria a solucionar o problema de milhares de pessoas no Brasil. Esse é um débito técnico, além de político, que temos com nosso povo, pois as soluções até então apresentadas em geral não consideram a adaptabilidade e a resiliência ao lugar. Temos uma ideia limitada de que seria necessário remover milhares de casas. Os Incas habitavam com grande segurança encostas mais declivosas que as do nosso território. Dificilmente temos notícias de que cidadelas incas tenham escorregado encosta abaixo. Ou de que tenham sido soterradas em fundos de vale. Eles valorizavam a vida e o esforço humano de construir a infraestrutura necessária para sobreviver no mundo andino. O trabalho humano também era sagrado.

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Qual a importância do apoio da CAPES?
A CAPES foi e tem sido fundamental para garantir condições institucionais de pesquisa e apoio ao pesquisador. Ela é um exemplo mundial de seriedade e fomento à investigação. Todos sabemos que no mundo contemporâneo, da sociedade do conhecimento, a ciência é a aliada número um do desenvolvimento das sociedades. Ainda mais quando vivemos uma épica de busca da sustentabilidade humana em um mundo em intensa transformação. Sem a ciência estamos fadados à escuridão da ignorância, a sermos escravos de outras nações.

Quais são os próximos passos?

Para tal dimensão de uma descoberta científica, feita genuinamente com o esforço brasileiro e sul-americano, precisamos ter ciência de que ela precisa ser defendida. Não basta apenas descobrir. É preciso ter condições institucionais para garantir que a descoberta seja amplamente reconhecida no mundo científico. Para tanto, faz-se necessário uma espécie de pós-doutorado que sirva para levar nossa pesquisa e descoberta para outras comunidades de pesquisa no exterior. Além disso, melhorar nossas condições de publicação, com apoio para divulgar. Tenho um livro pronto e busco interagir com grupos de pesquisa no Peru, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha, na Itália e na Espanha. Mas se eu não for para lá fazer seminários, publicar livros além de artigos científicos e detalhar a descoberta, ela poderá ser atribuída a outros. Se há algo que podemos aprender com a história da ciência é que as descobertas são garantidas com igual esforço dispendido para sua obtenção e isso também tem custos. Santos Dumont será reconhecido como pai da aviação se fizermos esforço enquanto nação para isso. Do contrário, haverá outros que irão competir para obter esse reconhecimento.

(Brasília – Redação CCS/CAPES)
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