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Bolsista estuda relação entre o câncer e a alimentação

Publicado: Quarta, 11 Março 2020 14:09 , Última Atualização: Quarta, 11 Março 2020 14:18

 G9A6545Nutricionista formada pela Universidade de Brasília (UnB), Lívia Dourado, é mestre em Nutrição Humana, doutora e em Imunologia Tumoral e cursa pós-doutorado na mesma área, pelo Programa de Patologia Molecular da Faculdade de Medicina, na mesma instituição.

Fale um pouco sobre o seu projeto.
No mestrado comecei a ver que o estresse oxidativo tinha uma relação muito próxima com o câncer. Nessa época eu trabalhava com frutos do cerrado e comecei a me apaixonar por essa área. Terminei meu mestrado e iniciei meu trabalho de doutorado estudando o câncer, mais voltado à imunologia tumoral. Apesar de, ao longo dos quatro anos, ir mudando o foco, eu continuo trabalhando com o câncer. Agora, com um enfoque maior na relação obesidade versus imunologia versus microbiota.

Então, por exemplo, o que está presente nessa dieta - e quando estou falando de dieta não falo de restrição calórica, mas, sim, de qualidade de nutrientes - que vai interferir no indivíduo? Como isso acontece? Como a composição dessa dieta vai interferir no indivíduo? Não só a relação peso, mas envelhecimento, doenças crônicas e diversas outras coisas. Uma dieta que tem uma quantidade maior de probióticos? Uma quantidade maior de gordura? Esse tipo de gordura é como? Saturada ou insaturada? Qual o reflexo disso no indivíduo? Principalmente a questão imunológica.

Já sabemos que a dieta modula intimamente a microbiota intestinal, que são as bactérias que vivem no nosso intestino. Essas bactérias, a depender do que a gente come, vão metabolizar e gerar alguns produtos que caem na corrente sanguínea e afetam todos os órgãos. É uma coisa sistêmica. Então, por exemplo, a gente tem casos onde, mesmo uma pessoa sendo magra, tem esteatose, que é a gordura no fígado; ou, uma pessoa vegetariana que tem colesterol alto. Isso tudo são questões intrínsecas que vão sendo moduladas através de uma rede sistêmica, que acontece no corpo inteiro. Microbiota, imunologia, tudo isso está interligado. Hoje em dia eu trabalho mais com essa parte: como a dieta, principalmente a hiperlipídica, vai influenciar na questão imunológica desse indivíduo?

Qual a importância do seu trabalho para a realidade brasileira?
Acho que é a conscientização de que se nos alimentarmos melhor, não só por uma questão de perda de peso, podemos melhorar o sistema imunológico e não desenvolver, por exemplo, gordura no fígado. Não estamos falando de um medicamento caríssimo. São coisas simples.

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Com base nesses estudos, você conseguiu encontrar uma dieta ideal?
A microbiota, que foi uma das coisas mais lindas com que eu já trabalhei – e só pude fazer isso graças à CAPES que pagou meu doutorado-sanduíche –, pode ser modulada pelo que comemos, mas ela também tem um peso genético muito grande. Provavelmente você nasceu com aquela microbiota e é muito difícil mudar completamente.
Vendo que existe um padrão muito pessoal de cada um, uma dieta que tem gorduras de qualidade, por exemplo, gorduras poli-insaturadas, rica em probióticos, fibras alimentares, em fitoesteróis, não necessariamente terá a mesma força de impacto em todos os indivíduos, porque isso é uma coisa muito pessoal, mas todos eles são positivos. Sempre vai ser benéfico, mas não necessariamente na mesma intensidade, porque isso varia de pessoa para pessoa.

Qual foi o seu trabalho durante o doutorado?
Eu fiz parte do meu doutorado-sanduíche na McGill University, em Montreal, Canadá, e analisei a microbiota de cobaias que tinham uma dieta normal, padrão, indicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) ou uma dieta hiperlipídica. Esse excesso de lipídios vinha da gordura saturada que nós adicionamos à manteiga. Como está tudo interligado à questão de dieta – o ganho de peso e a inflamação – nós publicamos um artigo sobre o assunto (inserir link).

O que a sua pesquisa traz de diferente daquilo que já é visto na literatura?
Já é sabido que a obesidade tem uma relação com a inflamação, e que a microbiota tem uma relação com a inflamação e com a obesidade, mas, até agora, a ciência não conseguiu fechar o ciclo. A gente vê o fato, mas não consegue, ainda, explicar o porquê. Então, o meu doutorado explicou em parte. A gente começou a ver alguns indícios de como isso funciona. Eu consegui ver, com a dieta hiperlipídica, qual seria a microbiota, qual espécie de bactéria estaria em maior quantidade e o que ela poderia estar lançando na corrente sanguínea, o que poderia estar produzindo de metabólito – produto do metabolismo, e como esse metabólito tem agido, por exemplo, no fígado, aumentado a esteatose.

Qual a importância do apoio da CAPES?
É muito importante, pois sem a CAPES eu não teria ido para o meu doutorado-sanduíche em Montreal. Me possibilitou estudar lá durante seis meses e desenvolver uma pesquisa que, para mim, foi belíssima, e que eu não teria possibilidade de desenvolver aqui no Brasil.

(Brasília – Redação CCS/CAPES)
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