Prêmio CAPES de Tese Notícias pct Dra. Raquel de Melo Boff

Dra. Raquel de Melo Boff

Publicado: Segunda, 03 Dezembro 2018 12:19 , Última Atualização: Quarta, 09 Janeiro 2019 15:27

Área

 Psicologia

Tese

 Efeito de uma intervenção interdisciplinar baseada no Modelo Transteórico de Mudança de Comportamento em adolescentes com sobrepeso ou obesidade

Orientadora

 Margareth da Silva Oliveira

Programa

Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC/RS

Entrevista

Formada em psicologia pela Universidade Federal de Caxias do Sul, com especialização em terapia cognitiva e comportamental pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), fez mestrado e doutorado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), na área clínica e de avaliação psicológica. Durante este período trabalhou diretamente com mudanças de comportamento e estilo de vida, adesão à dieta e atividade física direcionada à população adulta. Recebeu o Prêmio CAPES de Tese 2018 pelo trabalho “Efeito de uma intervenção interdisciplinar baseada no modelo transteórico de mudança de comportamento em adolescentes com sobrepeso ou obesidade”.

De onde surgiu o interesse em trabalhar com esse projeto?
O interesse surgiu antes mesmo de eu entrar no mestrado. Existem alguns comportamentos em saúde que são extremamente difíceis de modificar. Por exemplo, um usuário de drogas tem muita dificuldade em deixar de usá-las. Os níveis de reincidência, de recaídas, são bastante altos no país e no mundo. O mesmo acontece com o comportamento alimentar. No entanto, a maioria das políticas públicas se voltam para questão das drogas. Estas acabam ganhando mais visibilidade e o processo não é tão silencioso como os danos consolidados pela obesidade. Esta, porém, hoje já é considerada uma das principais epidemias mundiais na adolescência. Para se ter uma noção, o número de jovens obesos quadriplicou nos últimos 30 anos.
A obesidade aumenta, porque as pessoas deixam de ser ativas e se alimentam cada vez pior. É muito difícil se alimentar bem, é muito difícil fazer exercícios físicos. Quem nunca se matriculou em uma academia, pagou e não apareceu? Quem nunca iniciou uma dieta, uma reeducação alimentar e teve dificuldade em seguir? Então, meu alvo foi esse: como e por que as pessoas mudam. O que pode ser pensado para ajudar as pessoas a mudar e manter esse comportamento de mudança? Essa foi a grande questão para eu pensar e desenvolver uma tese de doutorado. Uma intervenção que pudesse ajudar as pessoas – especialmente a população de adolescentes, onde a obesidade é maior, com um IMC a cima do que deveria para idade deles.

Por que esses dados estão atrelados à população mais jovem?
Em geral o que eles têm não é uma vida mais ativa; o que eles têm é um metabolismo diferente do adulto, porque existem inúmeros estudos que correlacionam o tempo de tela, tempo que passamos em dispositivos de celular, televisão ou videogame, com a obesidade. O que isso significa? Que justamente nessa população os níveis de atividade caíram muito mais. Se olharmos os estudos hoje em dia, as pessoas de 40, 50 anos que já desenvolveram um triglicerídeo ou colesterol, em termos de um perfil lipídico e glicêmico alterado, já está mais ativa. A nossa população de adultos idosos está mais ativa que a população jovem. A impressão geral é que é o contrário, mas não, por conta desses dispositivos tecnológicos que geram queda de atividade física nessa população. Outra questão importante é que pessoas com 15, 16, 17 anos são filhos de uma geração de pais que não tem tempo para cozinhar. Onde a mãe e o pai trabalham é mais cômodo dar algo industrializado e rápido do que preparar uma comida mais saudável. Tudo isso contribui para o ganho de peso e o sedentarismo justamente nessa população.

Qual o impacto social da sua tese?
Como o objetivo foi avaliar o efeito de uma intervenção motivacional, nós utilizamos o chamado modelo transteórico de mudança. O fato de se pensar que para intervir com essa população de adolescentes, você tem que ir de uma forma diferente da usada com adultos. O enfoque precisa ser muito mais motivacional do que diretivo. O que eu fiz foi comparar uma intervenção, oferecida na rede pública de saúde, com outra intervenção, que é o elemento principal da minha tese. Ela aborda e considera que a mudança não é um produto – mas sim um processo –, onde quem vai mudar precisa ser respeitado na sua vontade para ser envolvido na mudança. O impacto é justamente poder pensar que existem formas de interagir; maneiras que o profissional de saúde tem que ter, que é a atenção básica de interagir, com esses adolescentes para promover essa motivação, para que a mudança seja permanente. Minha tese não avaliou só o antes e depois das intervenções, mas também acompanhou se essas mudanças foram mantidas. O grupo que teve uma abordagem mais motivacional se manteve em suas mudanças.

Aquilo que foi planejado inicialmente é o produto final da sua tese?
O que eu planejei para tese era que houvesse uma diferença muito grande entre os grupos, mas no final das contas a diferença não foi tão grande no curto prazo. Isso ocorre porque quando você diz para alguém que essa pessoa está no fundo do poço e que ela tem que mudar, ela muda. Essa mudança, no entanto, ocorre em um curto prazo, porque a pessoa não está pronta ainda. O grupo controle, que era um grupo mais diretivo, teve tantas melhoras quanto o grupo motivacional, então não adiantaria abordar os adolescentes de forma diferente. Mas, no longo prazo, você percebe que os adolescentes acabam mantendo as mudanças se bem envolvidos nesse processo.
A família, por sua vez, tem um impacto muito forte como predito do sucesso no tratamento. Todo e qualquer tipo de tratamento destinado à adolescência tem que ter o mesmo número de encontros e de atenção aos pais, porque a família é a grande sabotadora nesse processo todo. Eu fiz 12 encontros com os adolescentes e 2 encontros com os pais. Foi pouco. Se eu tivesse que fazer tudo de novo eu faria 12 encontros com os pais e 2 com os adolescentes. Muitas vezes os pais se irritavam porque o adolescente começava a apresentar melhora na alimentação, querendo fazer mais atividade física. Isso causa um desconforto familiar, porque o adolescente vê os pais tomando refrigerante na mesa e diz “ não é legal tomar refrigerante”; ou os pais compram doces, comem lanche na frente do adolescente, e ele já não quer mais isso. Fica muito difícil implementar qualquer mudança se o ambiente familiar não está preparado.
Outra coisa interessante que a tese mostrou foi a melhora nos níveis de ansiedade, nos níveis de compulsão alimentar, de estresses que esses adolescentes sofrem pela perda de peso. Então, há uma melhora as condições de saúde mental.

Seria certo dizer que esse comportamento alimentar é parte de uma construção social?
Sim, o comportamento alimentar a gente forma desde muito pequeno, mas a influência social é fundamental nessa síntese. Não é algo que você vai trabalhar isoladamente só com os adolescentes, existe uma construção social e principalmente familiar. No Brasil já existe uma legislação que resguarda o tipo de propaganda ou o tipo de oferta e de que forma os alimentos são ofertados. Também tem as academias públicas. Nós como profissionais da saúde, profissionais da rede pública precisamos motivá-los a utilizar todos esses recursos. Sempre que um profissional for ajudar qualquer paciente a fazer uma mudança, esta precisa ser motivada por fatores internos desses adolescentes. Geralmente eles não ligam para a saúde: a gente apresenta os exames que parecem de uma pessoa de 70 anos, mas o objetivo é entrar no vestido de 15 anos. A questão da imagem corporal tem um peso diferente na motivação e às vezes isso não é respeitado. O impacto da minha tese é nos profissionais de atenção à saúde e educação: como devem se posicionar ou como devem interagir com esses adolescentes para realmente ajudar. Uma tese é algo que se faz em 4 anos; não há muito tempo para isso, mas uma das propostas é criar, de alguma forma, junto com os órgãos públicos, uma capacitação. Acredito que esse modelo transteórico também possa beneficiar pessoas, modificando seu estilo de vida, mas para isso os profissionais precisam estar capacitados.

O que o prêmio CAPES representa pra sua carreira profissional e acadêmica?
Nossa, eu fiquei extremamente feliz com o prêmio. Ter um reconhecimento da CAPES, representa um desejo de seguir apesar de todas as dificuldades e não tem preço. Ganhar o prêmio me motiva. Já que eu trabalho com a motivação, acho que representa muito para a carreira. Eu sou muito grata, porque o meu doutorado e mestrado foram feitos com bolsas da CAPES. Então eu agradeço por tudo.

Vídeo

(Brasília – Lucas Brandão para CCS/CAPES)
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