Prêmio CAPES de Tese Notícias pct Dr. Eduardo di Deus

Dr. Eduardo di Deus

Publicado: Quarta, 12 Dezembro 2018 14:22 , Última Atualização: Quarta, 09 Janeiro 2019 14:54

Área

 Antropologia / Arqueologia

Tese

 A dança das facas: Trabalho e técnica em seringais paulistas

Orientador

 Carlos Emanuel Sautchuk

Programa

 Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UNB

Entrevista

Eduardo Di Deus possui formação na área de Ciências Sociais com habilitação em Antropologia, mestrado e doutorado em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB). Sua tese, ‘A dança das facas: trabalho e técnica em seringais paulistas’ foi selecionada para receber o Prêmio CAPES de Tese 2018.

Como foi a escolha do tema para o seu trabalho?
Ao longo da minha caminhada na Antropologia e nas Ciências Sociais sempre tive interesse pela interface Ciências Humanas/Ciências Naturais/Antropologia e Meio Ambiente. Estudei, em vários momentos, questões relacionadas à política ambiental. Minha tese de doutorado, objeto do Prêmio, já deriva para uma outra área.

O que é antropologia das técnicas?
A antropologia das técnicas é uma perspectiva de abordar os grupos sociais a partir das suas práticas, mas não só: em uma perspectiva genérica, mas dos processos de fazer das atividades técnicas. Uma perspectiva que amplia uma ideia que a gente tem no senso comum do que viria a ser uma técnica. Geralmente a gente associa a técnica a algo simplesmente mecânico, dissociado do humano. Então, uma antropologia da técnica parte do principio de que a técnica é um fenômeno essencialmente antropológico, essencialmente humano, que se constrói nos processos de socialização, nos processos de tornar-se parte de um grupo. Aprender uma técnica é parte dessa construção, desse pertencimento.

Como se aplica aos seringueiros?
Quando eu cheguei a campo tinha essa perspectiva teórica metodológica. Então, a minha ideia era entender a prática, a rotina desse seringueiro. Eu fui aprender junto com eles. Me submeti, de certa maneira, a uma iniciação como sangrador de seringueira. Ou como seringueiro. Fui aprender a fazer o corte, a segurar a faca, a manter um ritmo de trabalho. A ideia de entrar nesse mundo do trabalho, nesse mundo dos gestos técnicos, dessa minúcia de como eles fazem seu trabalho no dia a dia, abre uma perspectiva pelo nosso modo de ver para entender as relações de trabalho a partir da especialidade, das habilidades.

De onde surgiu o interesse em trabalhar com esse projeto?
Bom, é uma questão biográfica também. A região onde eu fiz pesquisa, no interior de São Paulo, chamada de Noroeste Paulista ou Planalto Ocidental Paulista, é a região que mais produz borracha no Brasil. Por volta de 55% da borracha natural produzida no país vem de seringais de plantação naquela região. Eu sou nativo dessa região, de São José do Rio Preto. Minha família habitou por muito tempo, a região da Amazônia. No Acre. Ali a seringueira, sem correr o risco de exagerar, foi responsável pela incorporação daquele território ao Brasil.
Quando eu estava me preparando para entrar no doutorado tinha outros horizontes de pesquisa, também já enveredando para uma interface com a aprendizagem, com técnicas. Estava pensando em outros temas e me dei conta de como aqueles seringais que eu conhecia da infância, ali em Rio Preto, pequenas plantações, tinham se multiplicado. Então falei: “Nossa! que seringueiro é esse?’’, Já se tem muito, na literatura antropológica histórica, os seringais, os seringueiros da Amazônia. Mas, não existiam ainda estudos de Ciências Sociais, Antropologia, sobre esse trabalhador rural do interior de São Paulo. E eu comecei essa trajetória, de certa maneira inversa à da própria seringueira. Ela saiu da Amazônia, suas sementes foram levadas pelos ingleses para a Ásia. Lá, nos jardins botânicos coloniais, desenvolveram-se novas formas de plantio, cultivo e várias técnicas agronômica. E tudo isso retornou a partir dos anos 50, 60 e 70, no interior de São Paulo, em forma de plantação.

Qual o impacto social da sua tese?
Eu acredito que um estudo como esse, primeiro, dará visibilidade a esses trabalhadores. O trabalho, como um todo, se presta inicialmente a gerar um conhecimento sobre a dimensão antropológica dessa técnica. Foi um ofício que foi se transformando, as ferramentas foram mudando, mas que ainda hoje depende de um material de origem vegetal, diferente de vários outros materiais extraídos de plantas, que foram substituídos por equivalentes ou similares derivados do petróleo ou de outras fontes minerais. A borracha natural, não. Nenhuma borracha sintética substitui a borracha natural, que é a mais completa.

O que o Prêmio CAPES representa?
Acima de tudo, é uma alegria muito grande, um prestigio. Não só para mim, como pesquisador, mas para todo o grupo de pesquisa do Laboratório de Antropologia da Ciência e da Técnica do Departamento de Antropologia da UnB, o ambiente no qual a pesquisa foi desenvolvida. O Prêmio vem em uma hora boa e é uma alegria muito grande receber o apoio da CAPES. Toda a pesquisa histórica, até a possiblidade que eu tive de visitar arquivos e bibliotecas na França e na Inglaterra se deu por meio do Programa de Doutorado-sanduiche. Fui bolsista desse Programa e tenho certeza de que essa oportunidade contribuiu para o formato final da tese.

Vídeo

(Brasília – Lucas Brandão para CCS/CAPES)
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