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IODP – Expedição 369

Diário 6 - Escalas

Publicado: Terça, 14 Novembro 2017 11:19 | Última Atualização: Terça, 14 Novembro 2017 19:25

O interessante de sempre ver as mesmas coisas todos os dias é que finalmente comecei a prestar atenção nos detalhes. Também minhas expectativas baixaram. Um evento excepcional torna-se algo como uma sobremesa diferente.

Cheguei no navio com a expectativa de ver baleias. Como eu percebi que dificilmente verei alguma, agora se o reflexo da luz na água é diferente eu já fico feliz. Um albatroz, então, faz meu dia. É mais ou menos assim que funcionam as escalas. Uma adaptação proporcional entre os tamanhos para que se adequem às nossas possibilidades de visualização e compreensão.

O tempo por aqui é contado na casa dos milhões. “Ah, isso foi só há 10 milhões de anos. Agorinha”. “Puxa, não passamos de 60 milhões”. Mudanças no planeta, como a divisão dos continentes, podem ter começado a ocorrer há 200 milhões de anos atrás, mas uma animação de vídeo consegue demonstrá-la em segundos.

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Gráfico estratigráfico da região em que nos encontramos atualmente, Bacia Mentelle, criado por Irina Borissova (Fonte: © Commonwealth of Australia (Geoscience Australia) 2017)

O período geológico que interessa aos pesquisadores da Expedição 369 é o Cretáceo, que vai de 145 a 66 milhões de anos atrás. O Cretáceo foi a era dos Dinossauros, de muita vegetação e em que o planeta era quente e os continentes quase grudados. Foi na passagem entre o Cretáceo e o período seguinte, Paleogêneo, que houve a queda do asteróide que extinguiu grande parte da vida na Terra. Tudo isso encontra-se registrado nos sedimentos retirados do subsolo oceânico. Centenas de milhões de anos compactados em metros ou mesmo centímetros de compostos de argila, rochas, conchas e outras evidências que se mantiveram protegidas e intocadas no fundo do fundo do mar.

Mas as camadas geológicas nem sempre se encontram organizadas umas sobre as outras como num bolo recheado. Muitas interferências ocorrem ao longo do tempo. Movimentos tectônicos, explosões de vulcões, ou mesmo a movimentação de pequenos animais podem abrir “rotas” preenchidas por materiais de outros tempos. E o trabalho que todos aqui no navio realizam é identificar e analisar tudo para assim compreender quais foram os eventos ocorridos no período recuperado em forma dos testemunhos. Gráficos das variações magnéticas que são decodificadas em idades das rochas permitem aos cientistas visualizarem em uma folha de papel, ou tela de computador, intervalos de tempo extensos, e assim fazerem comparações até finalmente chegarem à interpretações de causas e consequências de eventos naturais que podem ter se desdobrado por milhões de anos.

A divisão das camadas geológicas da Terra é chamada estratigrafia. Características físicas determinam os nomes e divisões dessas camadas, que representam fases relevantes pelas quais o planeta passou.

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(Ilustração: Cristiane Delfina)

Para nós humanos, que não aguentamos esperar uma comida esquentar no microondas por 2 minutos, é impossível conceber a duração e o desenvolvimento de 4,5 bilhões de anos. Em 1977, o astrônomo Carl Sagan criou o calendário cósmico, reduzindo toda a história do universo a 1 ano do calendário ocidental. Com as conversões, os primeiros hominídeos surgiram somente às 14h24 do dia 31 de dezembro, e o período Cretáceo começou por volta do dia 25 de dezembro e foi até dia 30.

Estes “5 dias” de acontecimentos deixaram marcas no planeta que nós humanos estamos causando em “ centésimos de segundos”, mas em centésimos de segundos, eventos naturais e reações do planeta causados pela poluição e desmatamento podem nos reduzir a somente alguns centímetros de cinzas, nas camadas que continuamente se formam, por enquanto, sob nossos pés. 

Acompanhe o diário de bordo da expedição.

Cristiane Delfina

 

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