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IODP – Expedição 369

Diário 8 - Final - Ciência e os cientistas

Publicado: Terça, 12 Dezembro 2017 16:30 | Última Atualização: Segunda, 22 Janeiro 2018 18:06

As ciências da Terra compreendem disciplinas como Geografia, Geologia, Física, Química, Matemática e Biologia quando relacionadas às dinâmicas do planeta. Ao conversar com os cientistas a bordo do navio JOIDES Resolution, na expedição 369 - Australia Cretaceous Climate and Tectonics, cujas formações são nestas áreas já citadas, o interesse pela natureza, por aventuras e atividades ao ar livre foi unânime para influenciar suas escolhas de carreira.

Os cientistas são rodeados por uma espécie de “misticismo" e senso comum que os define como pessoas racionais, detentoras de conhecimentos codificados, envoltos por seus jalecos brancos. Textos e processos acompanhados pelo termo “científico" exprimem credibilidade, confiança, veracidade. Como diz o filósofo da ciência francês Bruno Latour no livro Ciência em ação, “ o adjetivo "científico" não é atribuído a textos isolados que sejam capazes de se opor à opinião das multidões por virtude de alguma misteriosa faculdade. Um documento se torna científico quando tem pretensão a deixar de ser algo isolado e quando as pessoas engajadas na sua publicação são numerosas e estão explicitamente indicadas no texto."

Pois cá estou, encerrando minha imersão entre cientistas e seus métodos em busca de respostas sobre o passado do planeta.

Na rotina do navio, todos os dias ocorrem reuniões de transição dos turnos diurno para noturno e vice-versa. É interessante observar estas interações, quando cada grupo de trabalho apresenta suas observações e descobertas do dia. Adjetivos e opiniões pessoais são deixadas de lado, os protagonistas parecem ser as amostras e as informações que trazem. Contudo, várias vezes surgem impasses sobre os próximos passos e focos do trabalho, e aí fica claro que embora todos estejam trabalhando para recuperar e coletar o máximo de dados possíveis das amostras, cada pessoa ali tem interesses próprios de pesquisas, pontos de vista e prioridades diferentes. A expedição não é uma realidade comum para a maioria dos pesquisadores. Ali, professores experientes e com publicações de peso trabalham em igualdade com recém-doutores que possuem poucos artigos publicados. Ouvi inclusive vários jovens pesquisadores dizerem que estavam felizes por finalmente conhecerem autores de suas maiores fontes de formação, e também os mais velhos admirando o trabalho dos jovens.

Para muitos, porém, trabalhar em equipe já está fora de sua zona de conforto, pois o trabalho de pesquisa pode ser bem solitário. Viver num ambiente de onde não se pode fugir torna as coisas um pouco mais complicadas, mas o ser humano tem uma incrível capacidade de se adaptar. Topar o desafio de viver dois meses em alto mar traz consigo a consciência  e disposição para se trabalhar em equipe e tolerar muitas coisas.

Durante as entrevistas com os cientistas embarcados, perguntei o que é necessário para ser um bom cientista. Paciência, teimosia, capacidade de escrever bastante (porque mesmo que a área seja matemática, os relatórios de trabalho e os projetos de solicitação de fundos não têm só números) e humildade para admitir erros foram respostas que apareceram com frequência. O Co-chefe de expedição Richard Hobbs, Geofísico da Durham University, enfatizou que os erros na Ciência são mais úteis que os acertos, pois impulsionam as pesquisas e são as fontes das descobertas importantes.

As ciências estruturam-se no manuseio de máquinas, na escrita de artigos, na construção de reputações, na argumentação e na escolha de tempos e contextos ideais para se defender ou refutar ideias. Latour aponta formatações e a retórica como importantes recursos que institucionalizam o termo. Não se trata somente de coletar, analisar e fazer experimentos. São muitas instâncias que constroem e viabilizam pesquisas e a credibilidade que o termo científico implica. E, embora tentem ao máximo serem parte de processos frios e precisos, os cientistas são humanos, naturalmente cheios de parcialidades, incoerências e instabilidades das quais tentam desviar, mas também de onde tiram suas motivações para buscar respostas e soluções para os desafios que encontram no trabalho e na vida.

Cristiane Delfina esteve por dois meses com uma equipe de cientistas em uma expedição de pesquisa pelo programa International Ocean Discovery Program (IODP). A Expedição 369 - Austrália Cretaceous Climate and Tectonics partiu de Hobart, Tasmânia, no navio Joides Resolution, e subiu pelo mar Índico até Perth, na costa Oeste da Austrália.

Acompanhe o Diário de Bordo da expedição IODP 369.

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