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Trabalho desenvolvido com recursos da CAPES monitora doenças causadas pelo amianto

Publicado: Sexta, 15 Dezembro 2017 12:45 , Última Atualização: Quarta, 21 Março 2018 17:45

Uma das preocupações relacionadas à saúde dos trabalhadores no Brasil e no mundo são as doenças derivadas da exposição ocupacional ao amianto. Essa exposição pode causar diversas doenças, entre as quais estão a asbestose, o mesotelioma, os cânceres de pulmão, laringe e ovário, além de outros tipos de câncer, que podem ocorrer pela aspiração de partículas fibrosas do amianto, seja ocupacional, ambiental ou para-ocupacional.

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Apesar das estratégias para o enfrentamento do câncer de pulmão, estima-se que no Brasil, em 2012, ocorreram 17.210 casos novos desta doença entre os homens e 10.110 entre as mulheres. Diante desse contexto, o Programa de Pós-graduação de Enfermagem da Universidade Federal do Paraná (UFPR) propôs um projeto de pesquisa intitulado “A saúde do trabalhador e as neoplasias” à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), concorrendo ao edital do Programa Professor Visitante do Exterior (PVE) no ano de 2014. O estudo resultou em um software para registro e acompanhamento de casos da doença no Brasil, que foi entregue nesta semana à CAPES e ao Ministério da Saúde.

“O sonho de uma agência de fomento é financiar projetos que tenham resultados concretos como esse e que se desenvolvam como esse se desenvolveu, ou seja, com uma verdadeira parceria entre grupos brasileiros e internacionais da maior qualidade e comprometidas com o resultado que se quer obter”, disse o presidente da CAPES, Abilio Baeta Neves.

Pesquisa
O Ministério da Saúde, por meio de suas áreas gerenciais específicas, neste caso a área da Saúde do Trabalhador, tem por finalidade compreender a relação entre o trabalho e o processo saúde/doença nos trabalhadores e propor ações para a minimização dos agravos.

Portanto para que o material fosse de serventia para este órgão, dentre os diversos objetivos da pesquisa proposta, destacou-se a sistematização de mecanismos de levantamento, registro e controle dos casos de doenças bronco-pulmonares para auxiliar na definição de políticas públicas voltadas à proteção dos trabalhadores e da comunidade e a prevenção de novos casos. “Tínhamos como intenção entregar apenas um registro de dados para acompanhamento dos trabalhadores expostos ao amianto, armazenando dados e monitorando os pacientes registrados nos hospitais do Paraná. Entretanto, após visita técnica na Itália, em Roma, ao Instituto Nacional de Saúde, no ano de 2015, foi-nos autorizada a tradução do software Registro Nacional de Mesotelioma (ReNaM) e do código fonte, a tradução do “Linee Guida”, bem como a autorização para a utilização no Brasil como parceria entre os pesquisadores italianos e brasileiros, uma vez que não existia esse registro em território Nacional”, explica a coordenadora do projeto e professora adjunta do Departamento de Enfermagem da UFPR, Leila Mansano Sarquis.

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O Linee Guida contém orientações de como realizar as entrevistas, quais as principais fontes de contaminação nos mais diversos setores, os aspectos legais, todas as orientações de como utilizar o software e a autorização para o uso no Brasil. “Estamos entregando a tradução do software e o Linee Guida. Essa tecnologia de informação desenvolvida será disponibilizada gratuitamente ao Ministério da Saúde e a toda instituição de saúde ou universidade interessada que desejar estudar o tema, bem como realizar monitoramento dos pacientes, uma vez que os casos aparecerão a partir de 2020. Esse recurso tecnológico contribui para avanços no conhecimento sobre os impactos do uso do amianto na população em geral, posicionando o Brasil entre os países que se preocupam em monitorar a saúde do trabalhador. Enquanto pesquisadores estamos orgulhosos desta contribuição concreta para a construção do saber e mudança do perfil epidemiológico aos trabalhadores que passam por inúmeras dificuldades”, conta Leila.

Amianto
Em setembro deste ano, o Supremo Tribunal Federal proibiu a comercialização, bem como a extração do amianto. “Este feito só soma aos nossos estudos. É uma vitória aos trabalhadores, porém muitos deles já foram expostos e estarão adoecidos nas próximas três décadas”, explica a coordenadora.

ReNaM
Marco Aurélio Kalinke, professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná realizou assessoramento técnico para tradução do software. “O que estamos tentando trazer para o Brasil agora é um Sistema Nacional para Registro de Mesoteliomas, que são doenças causadas pelas fibras do amianto. Fomos buscar esse sistema na Itália, que é a grande referência mundial no registro dessa doença, pois foi um dos primeiros países a banir o amianto e o país onde as doenças causadas por este composto tomaram grandes proporções”, conta Marco.

O professor explica que o sistema de registros é muito mais que o software – esse é apenas uma das ferramentas para o registro. “O documento [Linee Guida] que foi entregue é o documento italiano traduzido e adaptado para a realidade brasileira, que organiza todo esse sistema de registro de casos de mesoteliomas. No documento estão orientações para criação do registro, orientações para realização das entrevistas, questionário com tradução transcultural e orientações para uso do software, que tem uma interface amigável e é de fácil utilização.”

Parceria italiana
Kalinke destaca ainda que é possível acessar o software com três senhas, sendo uma para utilização completa, outra para utilização parcial e outra apenas para consulta de dados. No programa, são cadastrados dados em fichas anagráfica, clínica, profissional, familiar, ambiental e extraprofissional. “Demoraríamos muito para levantar todas as possibilidades que os italianos já levantaram nos quase 30 anos que trabalham com a problemática. Eles já nos trouxeram as soluções. As traduções foram realizadas durante realização de Estágio pós-doutoral em Milão neste ano, sob supervisão dos professores Dário Consonni e Carolina Mensi. Agradeço à CAPES pela possibilidade de realizar esse estudo.”

Dário Consonni, professor visitante do exterior, agradeceu os colegas do Paraná pela colaboração no projeto e à CAPES, agência que disponibilizou os recursos. "Este projeto é interessante do ponto de vista científico, pois o Brasil tem poucos dados sobre esta doença. Embora a incidência de mesotelioma no Brasil ainda seja baixa, as previsões são que tenhamos aumento dessa neoplasia e de outros cânceres, por isso esse projeto também é importante do ponto de vista da saúde pública brasileira."

O diretor do Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias em Saúde do Ministério da Saúde, Artur Felipe Siqueira Brito, afirmou que um dos grandes desafios, em termos de pesquisa, é ver o resultado ser transformado em empreendimento. “Pensar na pesquisa para o paciente que vai utilizá-la, no profissional, no ente lá na ponta é muito gratificante. Ainda mais quando vemos conhecimento nacional atrelado a contribuições internacionais para essa finalidade. Em se tratando de amianto, é possível ver que tardamos um pouco no reconhecimento da periculosidade do composto, mas acreditamos que conseguiremos atrelar esse sistema de informação aos que já temos a nível ministerial e unir para outras frentes e outros diagnósticos. Essa é uma ferramenta simples e o Ministério da Saúde se preocupa muito com isso: trazer tecnologia, mas pensar que ela tem que atender em nível de município, estado e união.”

O presidente da CAPES, Abilio Baeta Neves, finalizou a reunião agradecendo os parceiros italianos pela disponibilização do software. "O que a Itália fez é incomum. Normalmente há uma negociação em torno da liberação de uma peça metodológica tão importante quanto o software que vocês estão apresentando. Esse gesto mostra não apenas confiança no trabalho dos colegas brasileiros, mas responsabilidade diante de um tema relevante como é a saúde pública."

(Natália Morato - Brasília - CCS/CAPES)

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