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Mulher e Ciência

Diretoras da CAPES falam sobre presença feminina na Ciência e seus desafios

Publicado: Sexta, 09 Março 2018 20:07 | Última Atualização: Sexta, 09 Março 2018 20:11

Na semana das mulheres, duas pesquisadoras que atingiram posições de destaque na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e que atualmente são responsáveis pelas diretorias de Avaliação e de Relações Internacionais, Rita de Cássia Barradas Barata e Concepta Margaret McManus Pimentel, trataram sobre a presença de mulheres na ciência e os desafios ainda existentes no cenário.

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Rita Barata, diretora de Avaliação da CAPES (Foto: Haydée Vieira - CCS/CAPES)

Responsável por coordenar os trabalhos do setor que avalia e recomenda os cursos de pós-graduação stricto-sensu brasileiros, a diretora de Avaliação da CAPES, Rita de Cássia Barradas Barata, atribui as conquistas na ciência alcançadas pelas mulheres ao aumento da escolaridade ao longo do século XX. “Na população brasileira, atualmente, as mulheres já têm, em média, uma escolaridade maior que os homens, o que já sinaliza um contingente maior de mulheres disponíveis para participarem na atividade científica.” De acordo com dados da Plataforma Sucupira, as mulheres também são maioria na pós-graduação brasileira.

Por outro lado, Rita lembra que, apesar dessas e de outras conquistas, as mulheres, em especial, aquelas que atuam na esfera científica ainda se deparam com desafios, como o caráter masculino das estruturas de instituições universitárias e de pesquisa. “Se analisarmos, por exemplo, a distribuição das bolsas de produtividade em pesquisa que representa uma parte da comunidade dos trabalhadores em ciência em posição de destaque, vemos que há pouco tempo havia uma concentração muito maior de mulheres na categoria 2 que na categoria 1. E, dentro da 1, muito maior nos níveis menores”. Segundo a diretora, essa análise não deve desconsiderar o efeito de “corte de geração”, que é o fato de os homens terem iniciado a vida escolar antes das mulheres.

A diretora de Relações Internacionais da CAPES, Concepta McManus, destaca ainda a “dupla-jornada” como um empecilho para o desenvolvimento das mulheres como cientistas e na permanência em cargos de chefia. “Existem mais mulheres na pós-graduação, na ciência, mas elas não ocupam cargos altos. As mulheres, inicialmente, desenvolvem-se de maneira igual aos homens. O desnível começa porque, ao longo da vida, a mulher acaba acumulando “dois turnos”: além de pesquisadora, também assume as tarefas de casa e da maternidade. Este fato acaba afetando o início da carreira, que é fundamental para uma continuidade com o devido reconhecimento. Os setores público e privado têm que observar que, ainda na atualidade, as mulheres têm essas ‘obrigações’ inerentes a elas e precisam de suporte.”

Rita Barata concorda. “Uma pessoa do sexo masculino e outra do feminino, formadas no mesmo ano e como o mesmo tipo de preparo, terão velocidades de desenvolvimento diferentes em suas carreiras. Isso acontece em função de a mulher, em uma parte de sua vida ativa, diminuir o ritmo de suas atividades em função das tarefas maternas, o que é natural. Creio que, ao longo do tempo, isso deve ir se modificando, devido à entrada cada vez maior de mulheres no mundo científico”.

Profissional
Para a diretora, entretanto, essa situação não justifica a fraca presença de mulheres em cargos de direção, mesmo em países desenvolvidos e em situações nas quais o nível de formação entre homens e mulheres é equivalente. “Esse tipo de situação ainda existe, mas creio que mudanças vêm acontecendo. No Brasil, por exemplo, há algumas facilidades para a mulher fazer sua carreira científica, progredir e ocupar cargos de destaque, já que a ciência brasileira é feita fundamentalmente nas instituições públicas. Nesse caso, as mulheres, por meio de concurso, podem ter os mesmos lugares que os homens. Por outro lado, quando você depende de contratação que não seja por concurso, a mulher sempre tem desvantagem, porque quem contrata não deixa de considerar aspectos como licença maternidade e o fato de terem filhos.”

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Concepta McManus, diretora de Relações Internacionais da CAPES (Foto: Haydée Vieira - CCS/CAPES)

Opinião semelhante tem a diretora de Relações Internacionais, Concepta McManus, quando aborda o preconceito que há em relação à gravidez. “O que as pessoas têm que entender é que, da mesma forma como são necessárias duas pessoas para uma gravidez acontecer, a responsabilidade também deve ser dividida. Se houvesse mais essa consciência, haveria um incentivo a mais para a mulher continuar na carreira. Ter uma carreira tranquila é muito importante e, além de ter essa divisão familiar, é importante que as instituições deem suporte neste sentido. Até porque, a sobrevivência do ser-humano depende do nascimento de novas vidas. Existem países que estão com problemas, pois a taxa de natalidade reduziu radicalmente. A gravidez significa segurança para o sistema, mas muita gente só enxerga a situação como um problema. É comum enxergarem a mulher grávida como um entrave e, então, jogar a responsabilidade toda para ela.”

Áreas de atuação
Rita abordou também a questão da atuação feminina em áreas com predominância masculina. “O preconceito existente reflete os estereótipos de gênero de que as mulheres são mais regidas pela sensibilidade e pela emoção e menos pela racionalidade, o que é um mito na sociedade. Vem daí a dificuldade que algumas mulheres encontram em atuar em profissões e áreas científicas pautadas no domínio lógico, já que são vistas como áreas masculinas. O problema é ainda maior quando se trata de mulheres em cargos de liderança, no qual os homens são subordinados.”

Para a pesquisadora, a inserção e o posicionamento das mulheres tanto na ciência como em outras áreas de atuação dependerão da evolução dos processos sociais. “A mudança de pensamento dessa sociedade será o instrumento capaz de mudar a situação feminina e, com isso, a possibilidade de a mulher ocupar de maneira semelhante aos homens posições de liderança também no campo científico.”

Incentivos
Na mesma linha de raciocínio, Concepta conclui que não existe necessidade de cotas para mulheres na pós-graduação, pois elas já são maioria, mas sim um movimento para que haja o reconhecimento destes trabalhos. “Em outros países são necessárias políticas para inserção de mulheres na ciência. Aqui, vejo como necessários estudos e movimentos para que as mulheres se mantenham.”

A diretora citou eventos como o Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência como boas oportunidades de discussão e reflexão sobre a inserção da mulher na ciência para que ela possa ocupar os dois papeis com tranquilidade: o de pesquisadora e de mãe.

A diretora falou ainda que não há dúvidas que a mulher é tão produtiva e capaz quanto o homem. “Digo isso em todas as áreas da ciência. O que falta, às vezes, é estímulo e oportunidade. E autoconfiança para que elas possam mostrar seu potencial. Muitos trabalhos atribuídos a homens foram desenvolvidos por mulheres, já que estes eram os chefes de laboratório. As mulheres não tinham destaque, mas atualmente este cenário está mudando.”

Concepta finalizou tratando sobre o papel do homem na inserção feminina. “Quando vamos montar um grupo de trabalho, procuramos aqueles que temos mais afinidade. E, geralmente, homem tem mais afinidade com homem e mulher tem mais afinidade com mulher. Então, se o homem não pensa além e tem a consciência da necessidade de inserção de mais pesquisadoras no mundo da ciência, a mulher acaba caindo no esquecimento. A mulher, por sua vez, acaba assumindo mais uma carga que é a de se impor para ser lembrada, pois, ainda hoje, muitos homens não ponderam sobre a questão da igualdade. Temos que pensar que todos temos responsabilidades para a mudança da sociedade.”

(Gisele Novais e Natália Morato – Brasília – CCS/CAPES)
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