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Bolsista estuda a arqueoastronomia da civilização minoica

Publicado: Sexta, 08 Novembro 2019 15:53 , Última Atualização: Sexta, 08 Novembro 2019 15:53

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Mestre pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ) com ênfase em História Política e Contatos Marítimos do Mediterrâneo na Antiguidade, Marcos Duarte, possui formação em História Antiga. Já no doutorado em Arqueologia, segue a pesquisa sobre a ‘Relação geopolítica e suas ferramentas de manutenção de poder político-religioso na ilha de Creta e a região do Costado Egípcio e Levantino’.

Fale um pouco sobre o seu trabalho.
A partir de análises dos palácios (1500 – 1400 a.C.) da civilização minoica, que ocupou principalmente a ilha de Creta entre 2.500 a 1.400 a.C. (região que atualmente abrange a Palestina e Líbano), observamos que eles possuíam peculiaridades que nos sugerem uma utilidade astronômica das estruturas arquitetônicas. Para as sociedades navegadoras, como Creta, era essencial um domínio de técnicas de navegação em diversas situações, como a navegação com visibilidade à costa (cabotagem) e em mar aberto (sem contato visual com o continente). Logo, o uso de um sistema navegacional astronômico é mais que uma ferramenta de orientação, mas, uma peça visceral de todo um sistema de rotas marítimas estratégicas que contribuíram para o enriquecimento das realezas palacianas cretenses. Consequentemente, esse domínio fortalecia suas influências de poder entre os demais grupos navegantes do mar Egeu, ao norte da ilha, como também uma relação diplomática equivalente com o Egito, principal potência na região.

 

Como se deu o interesse em trabalhar com o assunto?
Meu interesse se deu por, ainda hoje, termos, na geopolítica mundial e suas rotas de comércio, o Mediterrâneo como palco de ações diversas. Entender como na antiguidade, ferramentas como a Astronomia foram tão essenciais e estratégicas nos leva a perceber como ainda estamos influenciados por essa mesma antiguidade em múltiplos aspectos. Desde o equilíbrio diplomático e dos sistemas de governo até às crises de migrações, o Mediterrâneo ainda nos ensina muito.

 

Qual o objetivo da pesquisa?
O objetivo da pesquisa é compreender melhor, por meio de ferramentas como a Astronomia, como as relações de poder em Creta se sucederam e como isso contribuía para a manutenção das realezas e aristocracias locais. Sabemos que o homem, desde tempos antigos, observa o céu e o tem, ainda, como elemento de aquisição de datas de calendário, como a exemplo dos solstícios e equinócios, que ainda nos definem as marcações dos anos.

O que hoje podemos entender como equipamentos altamente estratégicos de comunicações dos países – como a internet e seus cabos submarinos ou os satélites espaciais – a Astronomia e seu domínio, praticamente exclusivo da realeza, fulgurava nesse sentido. Dominar as datas de eventos, cerimônias, períodos navegacionais era importante para toda uma sincronia de sistemas. Em períodos posteriores, percebemos uma queda desse sistema e, posteriormente, a ausência de um poder marítimo que mantivesse as rotas sem interferências, como a pirataria.

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Qual a importância do seu trabalho para a realidade brasileira?
A importância do trabalho para a realidade brasileira pode ser entendida a partir de como as sociedades se comportam em relação aos sistemas de política e suas ferramentas estruturais de poder. O domínio de uma Astronomia fortemente voltada para a navegação pelos cretenses nos sugere considerável necessidade estratégica para seus comércios com outras nações. Por meio de seus navios, Creta ingressou num universo diplomático essencial para sua sociedade que, por sua vez, era bastante peculiar em detrimento às demais sociedades com as quais Creta se comunicava.

Por mais que pareça distante, entender como as sociedades antigas se relacionavam por meio da diplomacia e do comércio é, muitas vezes, importante para os nossos dias, onde cada vez mais vemos um enfraquecimento das relações diplomáticas em contrapartida a um sistema em pleno movimento de contatos comerciais. Consideremos também que os palácios de Creta não possuíam muros ou fortificações, algo que nos sugere fortemente um grande aparato diplomático que lhes permitia uma relativa paz e ausência de ameaças bélicas à ilha no período minoico.

 

O que ele traz de diferente daquilo que já é visto na literatura?
A pesquisa inova tanto no âmbito internacional como nacional, pois, agrega novas metodologias de medição em Arqueoastronomia propostas pelo estudo do pesquisador. Para que pudéssemos entender como o indivíduo observava o céu no período estudado, precisávamos de um equipamento que permitisse analisar o espaço físico palaciano e sua relação com o posicionamento de objetos celestes essenciais ao homem antigo para cumprir com datações. Assim, com uma combinação de sistemas de softwares e equipamentos de astronomia e medição, nos é possível a simulação desejada. Isso nos permite trabalhar não somente com as construções minoicas da ilha de Creta, mas, também com outros sítios arqueológicos que tenham a presença de indicadores de observação celeste (gravuras e/ou pinturas rupestres, estruturas megalíticas etc).

O projeto tem como objetivo a facilidade de acesso à metodologia de campo e a possibilidade de a mesma ser aplicada sem muito aparato. Assim, com poucos recursos, um indivíduo pode proceder às medições também. Isso permite um futuro acesso da pesquisa em, por exemplo, escolas, como elemento de uma iniciação arqueoastronômica aos alunos.

 

Qual a importância do apoio da CAPES?
A importância do fomento CAPES à pesquisa está intrinsecamente ligada à necessidade de pesquisa com dedicação exclusiva do doutorando. Aquisições de livros, materiais e equipamentos de precisão, tal como os deslocamentos necessários que exigem o estudo. Assim, a CAPES tem sido de suma importância para o cumprimento deste estudo.

 

Quais são os próximos passos?
Em julho começo a segunda fase de medições em Creta, na missão de escavação orientada pelo professor doutor Álvaro Allegrette, da PUC/SP, e da Escola Francesa de Atenas (EfA). Cumprirei, assim, com a coleta de dados in loco do estudo.

(Brasília – Redação CCS/CAPES)
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